Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.
São Paulo S.A., logo em sua primeira sequência, mostra um casal discutindo acaloradamente dentro de um apartamento. A câmera, que espia pela parte de fora da varanda, capta os gestos da briga, mas não o conteúdo da conversa; é impedida por um vidro que sobrepõe, ao conflito íntimo do casal, o reflexo cinzento dos prédios lá fora. Visualmente, a imagem já denuncia a grande vilã do filme e a causa daquele fracasso: a cidade de São Paulo.
O que testemunhamos, na verdade, é o término do casamento de Carlos (Walmor Chagas) e Luciana (Eva Wilma). A partir dessa ruptura doméstica, disparada em um longo flashback, o filme retrocede para nos mostrar como o protagonista chegou até ali.
Narrador-personagem, Carlos nos conduz pelos pensamentos que guiam suas ações tortuosas. Ainda assim, trata-se de um sujeito tão canalha e egoísta que mesmo essa proximidade não é capaz de gerar qualquer sentimento de simpatia ou identificação. Obstinado convicto, é tão fechado em seu próprio mundo que se recusa até mesmo a conhecer uma música diferente de "Favela", a única canção (e talvez coisa) de que gosta.
Conquista suas ambições na base da insistência, mas é tão infeliz que não consegue sequer saborear suas vitórias. Encara a vida como uma série de tarefas a serem cumpridas, avesso a qualquer momento de contemplação ou divertimento.
É tão apático que mal consegue assumir o protagonismo da própria história, sendo aos poucos engolido pela metrópole, cada vez mais reduzido a mera engrenagem e compelido a aderir a uma posição conformista. Nunca é capaz de encontrar um remédio para sua melancolia.
Essa relação de alienação é muito bem trabalhada a partir da forma como Person filma a arquitetura e a vida urbana paulistana, criando uma sensação de monumentalidade e urgência. Isso é sempre realizado de maneira muito elegante, como no contra-plongée do Edifício Independência — simbolizando o prédio como figura opressiva —, ou na famosa cena da epifania conformista de Carlos no Centro Histórico.
O que Person apresenta, portanto, é a cidade de São Paulo como personagem central e totalitária. Um organismo vivo que devora a individualidade de seus habitantes em nome de uma ambição capitalista; permanece, 60 anos depois, um espelho incômodo de uma cidade que continua a moer o íntimo de seus sujeitos para manter as fábricas funcionando.