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CINEMA

Pedro

Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.


Ninfomaníaca (2013)

Lars von Trier

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São poucos os diretores que dominam a linguagem cinematográfica com a mesma fluência que Lars von Trier, algo que se torna visível a partir de seu profundo entendimento da condição humana. Ninfomaníaca é um filme que se rebela contra convenções, opera fora de qualquer zona de conforto e se constrói a partir do contraste.

Nada em Ninfomaníaca busca harmonia. O contraste entre metal industrial e música clássica, por exemplo, não funciona apenas como recurso estilístico, mas como tradução direta do estado mental de Joe. Uma personagem sempre no limite, definida pela instabilidade e pela experiência dos extremos. Ela alterna entre apatia e prazer, amor e ódio, controle e abandono. Enxerga beleza na feiura e feiura na beleza, e essa ambiguidade atravessa toda a construção formal do filme.

Von Trier trabalha a linguagem como espelho dessa desordem interna. Há planos extremamente elaborados, compostos com rigor quase obsessivo, que coexistem com outros em que a câmera faz questão de ser percebida, a ponto de flertar com o descuido. Essa oscilação não é falha, mas gesto autoral. É o diretor se impondo como presença constante, dividindo o protagonismo com sua personagem, mas jamais o roubando. O filme não tenta esconder quem o conduz.

Essa liberdade formal se intensifica na maneira como imagens invadem a tela para ilustrar pensamentos, ideias e memórias. Gráficos, sobreposições, associações visuais e digressões interrompem a narrativa de forma abrupta, funcionando como extensões da mente de Joe. Longe de enfraquecer o fluxo do filme, esses desvios o enriquecem, tornando os diálogos mais memoráveis e as ideias mais concretas. Tudo é constantemente explicado, ilustrado e tensionado, como se o próprio filme tivesse dificuldade em se conter dentro de uma única forma.

Ninfomaníaca é, acima de tudo, um filme de contrastes. De forma e conteúdo, de controle e excesso, de frieza e provocação. Von Trier não busca equilíbrio porque Joe tampouco o possui. A linguagem não serve para suavizar sua experiência, mas para expô-la em estado bruto.