Home Cardus Edição 15, novembro 2025

VIAGENS DOS SENTIDOS

Mia Jorge

QUEM SOU EU

Todas as viagens têm um propósito que será, naturalmente, diferente para cada um de nós. Assim é a viagem da vida. Algumas pessoas cavalgam os anos acomodadas à vida que foi sendo construída, sem que se coloquem muitas questões, ditas, filosóficas. Eu, (in) felizmente, desde cedo percebi que tinha uma vontade feroz em conhecer-me e àqueles que me rodeiam. Creio que terá sido essa a razão pela qual, ainda na adolescência, comecei a escrever (ou a procurar fazê-lo) poesia. Foi o meio que me permitiu ir ao lodo das minhas emoções e trazê-las à consciência. Era uma adolescente bem disposta, mas sempre perturbada por dores internas que não compreendia ou sabia descodificar. É, todavia, no momento da vivência da minha primeira grande dor, quando tinha 25 anos, que sou confrontada com um vazio absoluto e, paradoxalmente, com uma força totalmente desconhecida que surgiu das minhas entranhas. A partir deste momento, enceto a viagem mais bonita e dolorosa que alguma vez fiz ou farei: uma viagem para dentro de mim.

Na verdade, creio que o gosto pelas viagens que percorro por aí são outro meio que encontrei de me conhecer melhor e de me exceder, obrigando-me sempre a fugir das confortáveis zonas em que o humano gosta de apodrecer.

É, pois, a partir dos meus 25 anos que começo a descascar as múltiplas camadas de uma cebola gigantesca da qual não tinha absolutamente consciência.

Saber quem sou. Por que razão, em determinado momento, me zanguei com a vida. Qual era a origem do meu vazio existencial. Que dor escondia atrás de cada gargalhada. Saber, mesmo, se estas gargalhadas eram um véu que tapava aquela dor ou uma ferramenta poderosa para lidar com ela.

Hoje, com 56 anos, confesso, como Sócrates, “que só sei que nada sei” sobre mim e sobre os outros. Porém, nesta poderosa caminhada, aprendi a não julgar o comportamento das pessoas, por desconhecer as dores que escondem, a procurar meios de comunicação com os outros que me permitam escutá-los e ser escutada e a não exigir de ninguém, onde me incluo, mais do que cada um de nós consegue suportar.

Ontem, dia 28/09/2025, cheguei a mais uma camada profunda da minha cebola. Talvez por essa razão, hoje tenha decidido escrever-vos sobre a verdadeira viagem dos sentidos: a minha viagem.

 

Termino com um poema.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

Mia Jorge.