Marraquexe, a cidade vermelha ou ocre é, sem dúvida, um surpreendente bálsamo para os sentidos.
Embora a área ocupada pela cidade seja habitada desde o Neolítico, a origem de Marraquexe remonta ao ano de 1062, data a partir da qual se tornou um importante centro religioso, cultural e comercial e, pese embora ao longo dos séculos a sua importância religiosa, cultural e comercial tenha sofrido diversas oscilações, continua a ser, sem quaisquer dúvidas, uma importante, curiosa e movimentada cidade de Marrocos.
O centro histórico da cidade – Almedina – foi declarado património mundial da humanidade pela UNESCO no ano de 1985. Além dos seus belos riads (casas tipicamente muçulmanas, com um pátio interior, com árvores e uma fonte, para garantirem uma temperatura fresca ou amena no seu interior), a Almedina, cercada por muralhas, contém ainda os socos (lojas que integram o mercado tradicional) onde podemos comprar tecidos, candeeiros, tapetes, especiarias, óleos essenciais e outros bens mais modernos e actuais.
A visita à Almedina, e o passeio pelo labirinto do mercado tradicional é, pois, obrigatório, mas, mais do que isso, é um maravilhoso e imperdível exercício para os nossos sentidos: as cores, os cheiros e os sons diversos presenteiam-nos com uma experiência inesquecível. E, não, os seus comerciantes não nos incomodam, chateiam ou massacram para que compremos qualquer objecto. São hospitaleiros, afáveis, simpáticos, doces e só insistem connosco se mostrarmos interesse em comprar. Sim, se tivermos essa intenção, é obrigatório negociar. De outro modo, sentir-se-iam ofendidos.
Ainda na Almedina, insere-se a Praça Jemaa el-Fna, declarada Património Mundial Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2008. Não
fosse o calor de Marraquexe e creio que qualquer turista permaneceria sentado, durante, pelo menos, 12 horas, a observar a movimentação que ocorre naquela Praça. Ladeada por lojas e restaurantes, é ocupada, dia e noite, por pessoas que comercializam produtos diferentes ou ganham o seu pão a exercer actividades criativas, cujo exercício é, para nós, impensável. Creio que os únicos comerciantes que mantêm as suas “bancas” dia e noite são os vendedores de fruta e sumos naturais. Todos os restantes movimentam-se numa dança perfeitamente articulada. Uns saem para dar lugar a outros. E se durante o dia estão sentadas as mulheres (essas, sim, bastante aborrecidas) que querem tatuar as nossas mãos e pés com henna, os vendedores de frutas, e outros cujo calor não afasta, ao pôr do sol chegam os domadores de serpentes, os restaurantes móveis, os vendedores de óleos essenciais e aqueles que dançam e cantam, em troca de algumas moedas. Nesta azáfama, duas actividades que registei divertida. O primeiro, sentada num restaurante instalado no meio da praça. Enquanto aí jantava, vi um homem, numa mota a trazer pão para o restaurante porque o mesmo tinha acabado. Eram cerca de 22.30h.
Estes exemplos servem apenas para reflectir sobre a vivência do povo e a capacidade de fazerem dinheiro de forma criativa. Tudo funciona num caos que é perfeito. Tudo segue uma ordem, que nos parece desordenada, mas que coloca tudo no sítio certo à hora certa.
Existem, também, em Marraquexe, diversas Madrassas ou Escolas Islâmicas. A Ben Youssef é de visita obrigatória pela sua beleza arquitectónica. Uma oferenda aos nossos sentidos pela riqueza dos pormenores, das cores e dos materiais utilizados na sua construção (a reconstrução recente manteve os materiais e desenhos de origem).
Marraquexe é sinónimo também de jardins e de paixões. Vale, por isso, conhecer o Jardim Majorelle, propriedade de Yves Saint Laurent, um apaixonado pela cidade e um contribuidor para a sua beleza. Numa cidade onde o calor é uma inevitável companhia do homem, entrar no Jardim Majorelle é poder desfrutar de um ambiente fresco proporcionado por inúmeras espécies de árvores que crescem ordenadamente pelo jardim. E, se passarem por Marraquexe por estes dias, desfrutem de uma pequena amostra de algumas das peças icónicas costuradas por Yves Saint Laurent.
Porém, num local inóspito, desértico, é extraordinário perceber que no século XII foi construído um genial sistema de irrigação subterrâneo (recentemente restaurado), que começava nas Montanhas do Atlas e trazia a água até à cidade de Marraquexe. A não perder, portanto, o Agdal Gardens, uma vez que além de podermos visualizar partes deste sistema de irrigação, podemos assistir a pequenos
filmes explicativos deste complexo sistema de irrigação e do trabalho minucioso e perfeito de restauro destes jardins.
No fim de todas estas visitas, ou no intervalo de cada uma delas, vale a pena sentarmo-nos a degustar a gastronomia marroquina, tomar uma refeição ou beber simplesmente um chá de menta nos diversos oásis que surgem na nossa caminhada. No que se refere à gastronomia, os pratos são confeccionados praticamente sem sal, cabendo o tempero às inúmeras especiarias. Para os amantes de vinho à refeição, é importante não esquecer que a maioria dos restaurantes não vende qualquer tipo de álcool.
Por último, para relaxar das caminhadas e do calor, não deixe de visitar um Hammam tradicional. Não ceda à tentação de entrar num hamann turístico; prefira conhecer aqueles frequentados pelos moradores de Marraquexe. É uma experiencia extraordinária, que a sua pele e espírito agradecerão.
Mia Jorge.