Cardus Edição 145, maio 2025

VIAGENS DOS SENTIDOS

Mia Jorge

ROMA

Aquela concreta viagem a Roma foi totalmente inesperada. Desde logo porque corria o ano de 2020 e, de forma generalizada, as pessoas recusavam-se a viajar. Eu não marcara a viagem e a mesma ocorreu por um convite inesperado de uma amiga de sempre. Por último, estávamos já em pleno ano judicial com o decurso de uma Audiência de Julgamento, pelo que as datas inicialmente previstas para a viagem foram alteradas por forma a permitir a realização desta e a minha presença nas sessões de Julgamento agendadas.

Partimos, pois, no dia 12 de Setembro de 2020 e regressámos no dia 19 de Setembro de 2020. Será guardada como a mais bela, divertida e profícua viagem que já fiz.

O encanto sobre Roma assentará, porventura, na lenda da sua origem. A história dos gémeos Rómulo e Remo descendentes de Marte e de Reia, e que foram lançados ao rio Tibre, num cesto, por ordem de Amúlio, para morrerem afogados. Foram encontrados por uma loba que os amamentou e, depois, criados por um pastor. Rómulo viria a matar Remo (uma das versões desta lenda) e no dia da sua morte, em 21 de abril do ano de 753 A.C  fundou a cidade de Roma.

Museu

Sem prejuízo da sua origem, e do mistério e beleza que esta lenda encerra, certo é que Roma é para mim a cidade (conhecida) mais bela da Europa. Nela se misturam, de forma harmoniosa, o passado e o presente. A história segue-nos a cada passo e, de cada vez que voltamos a Roma, temos mais um resquício romano para observar ou um monumento, já existente, mas melhorado ou expandido. Em Roma a história respira-se, respeita-se e cuida-se, como, confesso, não recordo ter visto em mais nenhum outro local da Europa. É disso exemplo o Coliseu de Roma (ou Anfiteatro Flávio ou Flaviano), o maior anfiteatro romano do mundo, erigido entre o século VII e o século VIII, que se encontra em recuperação e reconstrução, desde, pelo menos, a minha primeira visita a Roma em 2004.

Roma vale, pois, uma visita pelos seus monumentos históricos, mas, também, pelos passeios pedonais junto ao rio Tibre, a passagem de uma margem à outra pela Isola Tiberina,  e incursão imediata no Bairro Trastevere (Trans Tiberim ou além do Tibre), que além de ser conhecido pelas suas ofertas gastronómicas e pela boémia, guarda verdadeiros tesouros históricos, como a Igreja de Santa Maria in Trastevere e as suas ruas medievais, plenas de lojas de moda e de arte.

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Porém, guardo no meu coração, aquele que considero o mais belo monumento de Roma, o Panteão. De tal forma, que de cada vez que vou a Roma fico alojada na sua proximidade para poder observá-lo pela manhã, quando começo as minhas visitas,  e pela noite, enquanto saboreio a melhor vertigem gastronómica romana, o famoso Gelato. Ainda recordo o primeiro dia em que o vi, depois de ter entrado numa zona de prédios onde cria ser impossível descobrir este monumento. Mas, de facto, lá estava ele. Enorme, imponente, erigido na Piazza della Rotonda no século II.

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Tenho também, confesso, um enorme prazer em sentar-me num dos muitos cafés situados na Piazza Navona, a beber, ao fim da tarde, um Aperol, enquanto observo o seu estilo Barroco e as suas três fontes, Fontana del Moro, Fontana del Nettuno e a Fontana dei Quattro Fiumi , esta última esculpida por Bernini, e que representa quatro rios de quatro continentes: o Nilo, em África, o Ganges, na Ásia, o Rio de Prata na América e o Danúbio na Europa. Ao centro desta praça ainda se ergue, imponente, um obelisco de 16 metros. Além de ter sido um Estádio - Stadio di Domiziano – construído no ano de 86 d.c. pelo Imperador Domiziano, apaixonado pelos desportos, a partir do século XVII e até meados do século XIX, transformava-se, nos meses de Verão, num enorme lago. Com efeito, nesse período, o escoamento das águas das três fontes era interrompido e a Praça enchia-se de água.

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Não podemos sair, porém, desta Praça, sem fazer uma visita à Igreja de Sant’Agnese in Agone, Trata-se de uma Igreja Barroca, do século XVII, mandada construir pelo Papa Inocêncio X e que se tornou uma capela familiar, anexada ao Palácio Pamphili. Entre os arquitectos responsáveis pela sua construção estiveram Borromini e Bernini, rivais à época. Aproveitarei esta rivalidade para voltar a Roma. Ficou tanto por escrever sobre esta inusitada viagem.

Até breve, ainda por Roma.

Mia Jorge