Cardus Edição 143, março 2025
A ida recente ao cinema Ideal, para assistir ao filme “Banzo”, trouxe-me uma interpretação diferente daquela que foi uma viagem inesquecível a São Tomé e Príncipe. Mais do que o filme, foi a conversa com a sua realizadora, Margarida Cardoso, que me trouxe uma nova e diferente visão daquele país.
Confesso que não recordo com exatidão o ano em que visitei São Tomé e Príncipe, mas este é um pormenor sem qualquer relevância, uma vez que o tempo não apaga as memórias que, quase incólumes, ainda persistem em mim. A curiosidade por visitar este país nascera da leitura do livro de Miguel Sousa Tavares “Equador”. E lá fui, como vou sempre, sem expectativas e sem qualquer leitura prévia da história daquele país.
Ao aterrar, estranhei o facto de ter começado a chorar como uma criança. Nascera em África, é certo, e talvez tivesse sido a recordação de Moçambique que me tivesse feito chorar. Porém, durante os 15 dias em que estive em São Tomé e Príncipe, compreendi que mais do que a memória da minha terra, teria sido a antecipação da força daquela natureza a beliscar-me os sentidos. São Tomé e Príncipe entranha-se de tal forma em nós, que aquilo que vivemos é, estranhamente, muito bom ou muito mau (aprendi com a Margarida Cardoso que as memórias deste país podem, ainda assim, ser más; as minhas memórias são as melhores que posso guardar da visita a um país).
A primeira memória, aquela que está sempre presente, é a imensidão da natureza. Árvores que crescem até ao céu e invadem casas onde outrora viveram famílias, palmeiras que crescem deitadas protegendo a terra da força do mar, e o mar, aquele extenso e forte mar onde os homens, em canoas por si “costuradas” vão pescar, diariamente, o peixe que almoçam ou jantam (isto, claro, se viverem no litoral).
A segunda memória, o povo. Mesmo sem saber sobre a história do país, reconhecem-se diversos “povos”. E, de facto, este país foi povoado a partir, sensivelmente, do século XV/XVI (o país é descoberto pelos navegadores portugueses João de Santarém e Pêro Escobar no ano de 1470, sendo um território desabitado) por colonos brancos e escravos negros oriundos de diversos países africanos (foi, aliás, um entreposto de comercialização de escravos com destino ao Brasil). Um povo constituído, portanto, maioritariamente, por descendentes de escravos, que transportam consigo cicatrizes profundas na alma.
Um país que foi colonizado duas vezes. Na primeira colonização, foi desenvolvida a monocultura do açúcar, com recurso ao trabalho escravo. Após o declínio da monocultura do açúcar, no século XVII, houve um interregno de cerca de duzentos anos, durante os quais os habitantes daquele arquipélago quase se autogovernavam. A segunda colonização, iniciada em meados do século XIX, caracterizou-se pelo desenvolvimento da monocultura do cacau. Os trabalhadores eram, alegadamente, homens livres, contratados (a escravatura terá sido abolida neste território no ano de 1876), mas o que é a liberdade num território donde dificilmente se consegue sair e no qual o trabalho é, maioritariamente, o trabalho desenvolvido em campos de plantação de cacau. Quem, senão os “anteriores” escravos, faria este trabalho pesado, em condições climatéricas difíceis, a troco de habitação e alguns víveres? Os contratos não eram mais do que a legalização formal da escravatura que subsistia, portanto, naquele território, ainda que mascarada de liberdade.
Porém, o povo, aquele que hoje vive em São Tomé e Príncipe é o povo do “leve, leve”, aquele que não tem pressa (herança que lhe terá ficado na memória coletiva); não tem para onde ir, nem tem o que fazer. Habituaram-se a descansar dos anos dos trabalhos árduos. E a natureza é pródiga. Dá-lhes o alimento diário: além dos frutos, o peixe; no interior das ilhas, as bananas, colhidas antes da refeição e servidas cozidas como único repasto alternativo à fome.
Sim, São Tomé e Príncipe é um país profundamente belo, mas o povo continua a ser fustigado pela pobreza, pela vivência degradante (casas construídas sobre estacas em madeira, sem casas de banho e saneamento básico). As ricas e belas construções existentes, que ainda não foram “devoradas” pela natureza, eram casas senhoriais, onde viviam os brancos, donos das plantações de cacau e dos escravos.
Porém, São Tomé e Príncipe é um país que merece uma visita. Conhecer o povo e deixar-se dominar pela natureza. Num tempo em que não temos tempo, São Tomé e Príncipe ensina-nos a parar e a sentir. Leve, Leve!
Nota: Na próxima edição continuarei a falar de São Tomé e Príncipe. Situações concretas lá vivenciadas e que traduzem com mais pormenor tudo o que foi acima referido.
Mia Jorge