Home Cardus Edição 152, dezembro 2025

A Memória das Palavras

Seleção e notas de

Raul

Bíblia

YAO JINGMING - (Pequim, 1958).  Com o pseudónimo de Yao Feng, é poeta, tradutor, académico, escrevendo em português e chinês. Viveu ainda o fim da Revolução Cultural. Professor Catedrático Jubilado da Universidade de Macau, exerceu o cargo de vice-presidente do Instituto Cultural de Macau, e de diretor do Departamento de Português da Universidade de Macau. Na qualidade de investigador da literatura portuguesa publicou ensaios sobre vários escritores portugueses e acabou de publicar “O Encontro dos Extremos, Intercâmbio Literário entre a China e Portugal”, história das relações literárias entre Portugal e a China. Traduziu para chinês vários poetas portugueses: Florbela Espanca, Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen e Nuno Júdice, promovendo o diálogo entre a cultura lusófona e chinesa. A obra poética de Yao Feng surge-nos como um “caleidoscópio de emoções, afetos, sentimentos e de olhares lançados sobre a China, sobre Portugal, sobre o mundo em que vivemos e algumas personagens reais ou imaginárias que o povoam”, a integração entre Oriente e Ocidente. Poeta contemporâneo, não deixa de seguir a tradição de grandes poetas clássicos chineses. Algumas das suas obras (poesia): Nas Asas do Vento Cego (2006), Confluências (1997), A Noite Deita-se Comigo (2001), Canto para Longe (1969), Poemas Escolhidos (2008), Palavras Cansadas da Gramática (2014), Além da Montanha (2019).



SINA

Sina, imensa e remota, etérea, enigmática
imponderáveis os fios que a tecem
Mas o que a define
são os trilhos traçados quando nos perdemos
nem atalhos serão
um olhar, um esboço de sorriso, uma lágrima
uma palavra, um telefonema, um fulgor do coração
uma bátega de chuva na janela
um instante, um ato impulsivo
A sina emerge num ápice, num bater de pálpebras
imprevisível sina
Se o imperador Guangxu tivesse recusado o vinho letal de Cixi
se Dom Sebastião de Portugal regressasse na manhã de nevoeiro
se a mãe de Hitler tivesse abortado na noite do nevão
se a Princesa Diana não tivesse ido em segredo
ao encontro do amante egípcio
seria outra a sina da dinastia, do país, de alguém.
Nesse ano, nesse instante,
um olhar imprimiu novo impulso à rotação de um astro
Neste momento às dez e meia da noite o universo para lá da janela
infinito, indistinto, imenso, pulsando
na tranquila ruína das estrelas
eis que feixe luminoso, após um bilião de anos luz
atinge por fim o seu destino: o nosso rosto.

AMOR POR UM CAVALO

No Alentejo
vi o cavalo – possante, esbelto
pelagem branca, puro e natural
tranquilo, pastando a erva verde
de vez em quando erguendo os cascos
afastando os moscardos com a cauda

Simples, absoluta, perfeita criatura
nem sinal de impureza no brilho do olhar
pastar e galopar – e nada mais
nenhum anseio por uma vida melhor

O coração cresceu-me em ternura
senti, passando a mão pela crina
a minha solidão irmã da dele

Neste mundo que incessante muda
mais espontâneo é o amor aos bichos
do que aos humanos.

(Yao Feng – Palavras Cansadas da Gramática, Gradiva, 2014)