Cardus Edição 142, fevereiro 2025
Um Presidente de autarquia, movido pela criatividade e empreendedorismo afirmou:
Presidente - A nossa Terra tem de ter um Museu. Será um ponto de encontro, os turistas virão visitar-nos e é um fator de desenvolvimento da região.
Alguém na assistência, muito admirado, perguntou:
Munícipe - Mas um Museu de quê?
Presidente - Será um Museu de memória, com depoimentos, algumas fotografias, colocamos tudo na Internet e já está! Podemos aproveitar um edifício da autarquia e, teremos assim, o “nosso Museu”.
O referido munícipe, que tinha alguns conhecimentos de museologia, continuou:
Munícipe – Senhor Presidente, eu apoio a ideia de ter um Museu na nossa localidade, mas tem de cumprir pelo menos, sete premissas: um Plano Museológico, um Plano Museográfico, Investigação, Registo do Acervo, uma Reserva Técnica, Exposições e Dinamização / Comunicação.
O Presidente ficou admirado com esta informação, nunca tinha pensado que a existência de um Museu implicaria tanta complexidade.
Munícipe – Antigamente, os senhores com algumas posses metiam os seus objetos preciosos ou estranhos num gabinete a que chamavam “Gabinete de Curiosidades”. Foi daí que nasceram os Museus. Atualmente, a existência de um Museu obriga a um maior profissionalismo. Queremos um Museu, não um armazém com curiosidades, certo?
O Presidente lá se convenceu que o processo não era assim tão simples e acrescentou:
Presidente - De uma forma simples, explique-me então o que são esses sete pontos.
Munícipe – Para que tenha conhecimento da complexidade da existência de um Museu, aqui tem uma breve explicação:
O Plano Museológico é uma ferramenta imprescindível para o desenvolvimento do Museu, estabelecendo a sua visão, a sua missão e os seu objetivos.
O Projeto Museográfico pensa a arquitetura do Museu, cuja finalidade é a de estabelecer uma experiência entre o sujeito e o bem cultural salvaguardado por ele.
A Investigação e o Registo do Acervo são importantes instrumentos de estudo e planeamento, que tem como objetivo contextualizar, consolidar, analisar e organizar as informações relativas aos acervos museológicos, identificando as necessidades do museu em relação às suas coleções.
O Museu deve ter uma Reserva Técnica, onde deve preservar adequadamente, o acervo excedente, em instalações próprias, com o acesso mais restrito.
A Exposição é um dos principais objetivos do Museu, o elo da instituição com os seus visitantes sendo que a expografia é o conjunto de técnicas para o desenvolvimento de uma exposição sendo constituído por três elementos básicos: o conteúdo, a ideia e a forma e que somados geram a perceção, a experiência estética.
Finalmente, um Museu que não aposta na Divulgação e Comunicação com a sociedade, não existe. O contacto com os mais diversos públicos e a comunicação, são funções primordiais no que respeita à inspiração e educação de uma instituição museológica.
Fez-se um silêncio na sala com tamanha complexidade. O Presidente lá se recompôs e afirmou:
Presidente – Fiquei esmagado com esta explicação, mas mesmo assim não desisto da ideia de criar um Museu. E é tudo ou falta alguma coisa?
Munícipe – Faltam muito outros pormenores e sobretudo, profissionais que executem, com conhecimento, adequação e qualidade, as funções que referi. Para diretor do futuro Museu, sugiro alguém com experiência em museologia e gestão. E não se esqueça, Presidente, que um bom Museu contribui para o bem estar e… faz bem à saude!