Home Cardus Edição 152, dezembro 2025

CRÓNICA

Malisca

OS MANSOS

Depois de uns dias chuvosos, em que o convite era ficar por casa, lá foram até ao campo acertar as agulhas dos pinheiros mansos que prometem continuar a crescer e alindar o espaço que os acolhe em comunhão com o poço de água e as cabanas de madeira.

Tudo começou por altura do Covid, quando perceberam que aquele pedaço de terra, até ali fadado para santuário de árvores, lhes poderia desemaranhar sorrisos, no meio de tanta angústia e incertezas.

Em pouco tempo já um kit da Toscca se arrumava pela beira a aguardar montagem. Não foi complicado encaixar as tábuas que, à moda de um lego, rapidamente se transformaram numa casinha de dez metros quadrados, uma mini Tiny house. Trazer a água do poço até ela foi  tarefa conseguida. A instalação de painéis solares anunciou a maravilha da iluminação. Para escoar as águas residuais do lava-loiça e duche, com o mínimo de estrago ambiental, depois de muito se pensar, a opção recaiu na compra de uma fossa de decantação com filtro. Uma procura na Net levou-os ao Alentejo para adquirir uma Sanita Seca, importada da Dinamarca, que permite a separação da urina, utilizada depois como adubo juntando-se água na proporção de um para dez. Os sólidos, juntamente com outros restos orgânicos, vão para o compustor, que está majestosamente instalado no pinhal. 

A cozinha aninhou-se no exterior, envaidecida com um forno a lenha, um pequeno fogão a gás e um grelhador de carvão, não se envergonha de nenhuma outra. A bailarina que a acompanha, com meia dúzia de pinhocas aquece a água a 50 ⁰C mantendo-a quente pelo dia a fio.

Nas manhãs soalheiras, ao sabor da brisa, com as árvores pela frente, elencam-se amores-perfeitos e sonha-se, devagar. Aqui o tempo espera e deixa-se encaixar nas mil e uma tarefas que não importa findar. É um retiro, é paz, é onde se escuta o silêncio nas horas que não são de ponta e não levam as gentes para o trabalho. Nas outras também o ar corre sem pressa, não se agita nem chega a esvoaçar.

Cliente

A mini Tiny house já foi replicada, esta será a sala/casa de jantar, era preciso desafogar a outra, deixar de ser multiusos para ser apenas quarto de dormir. Os mansos abraçam agora duas cabanas de madeira, engalanadas de acessórios em enlace com a natureza que as rodeia.

O poço está ao centro, pintado de cal, redondo e branco, chama a atenção de quem passa. O alpendre de canas e troncos rudes protege a mesa de picnic, não vá a chuva zangar-se com ela. O alpendre de telha vermelha, ainda por levantar, irá pavonear-se no meio dos pinheiros com cadeiras portuguesas, as Gonçalo, e a promessa de muita cumplicidade em almoços de verão.

Num outro canto, com folhas gordas e grandes, os cactos ladeiam a figueira que, ao centro, se pavoneia  numa união de pertença a este espaço alegrando-nos o olhar.

Este é um espaço em construção, um espaço que nasceu de uma necessidade e de uma vontade em comungar com a mãe Terra. Baptizado de Os Mansos, este espaço presenteia-nos com a sua beleza e encanto, aqui cada um de nós respira alegria e bem-estar.