Home Cardus Edição 149, setembro 2025

HISTÓRIA (Guerra Colonial)


Carapito

Sinopse

Se o terrorismo acabasse, ou se pelo menos acabasse numa das três províncias afectadas, ia-me embora.

Salazar, Maio de 1968

O desabafo de Salazar em conversa com Franco Nogueira em Maio de 1968, mesmo numa análise superficial, mostra que sete anos depois do início das guerras coloniais, ainda não tinha compreendido as causas profundas dos ventos nacionalistas que varriam África desde a década anterior.

Amílcar Cabral tentou por várias vezes dialogar com o regime, sem merecer deste a consideração básica duma resposta, sem a qual, avisou, só restaria a via armada para a solução do problema colonial da Guiné.

O início oficial da guerra pela independência da mais pequena das três colónias africanas, aconteceu no dia 23 de Janeiro de 1963, com o ataque ao quartel de Tite, por um grupo do PAIGC, mal armado, mas que rapidamente se organizou, cresceu, armou e fez da segunda frente das guerras coloniais a mais temível, e a que, proporcionalmente, mais recursos humanos e materiais consumiu e na qual o Exército Português se atolou, fazendo desta frente o Vietnam nacional.

António Carapito escreve de acordo com a antiga ortografia




1963-Abertura da Frente da Guiné


Defesa da Guiné-sim ou não?

O regime, ou melhor algumas das suas figuras gradas, já tinham feito a reflexão se valeria a pena a defesa da Guiné. Pouco maior que o Alentejo, situada entre o Senegal a Norte e a República da Guiné a Sul, com cerca de 36000 kms2 e 600 000 habitantes nativos, 2500 brancos e 5000 mestiços em 1963, com um território insalubre, entrecortado na zona costeira por inúmeros rios e ilhotas, que reduzem a sua área emersa para 28000 kms2, a Guiné justificava bem essa avaliação. Com um clima inóspito, muito quente e húmido no litoral, quente e seco no interior, vegetação cerrada nas margens dos rios e savana no interior, com fronteiras fluidas com os Estados vizinhos, (apenas delimitadas fisicamente com a França entre 1929 e 1933), sem barreiras naturais, com um complicado mosaico étnico de dezassete tribos diferentes, 58% da população animista, 38% muçulmana e apenas 4% cristãos e com uma primitiva economia de subsistência, esta pequena colónia dificilmente passaria no teste do interesse nacional da sua manutenção. As exportações e o comércio externo que se resumiam a produtos agrícolas, coconote e amendoim essencialmente, algumas madeiras e peixe, eram controlados pela CUF e pela Casa Gouveia que também importavam os produtos manufacturados de que a economia interna necessitava. Se alguma atractividade existia na Guiné, era apenas para estes dois grupos.

Franco Nogueira, pouco depois da perda do Estado Português da Índia propôs a Salazar o descarte da Guiné, Macau e Timor, ficando o Império reduzido a Angola, Moçambique e Cabo Verde. Adriano Moreira apoiava esta heterodoxia, mas propunha uma progressiva e irreversível autonomia das colónias. Convocado o Conselho Ultramarino em Outubro de 1962 para discutir o futuro, o Almirante Sarmento Rodrigues expôs a sua via: Ministério do Ultramar transformado num Ministério de Coordenação Interterritorial (curiosamente foi esta a designação do ministério sucessor do extinto Ministério do Ultramar, após o 25 de Abril), com as suas competências passadas para as colónias, que passariam a dispor cada uma de um Ministro de Estado. Marcelo Caetano foi mais longe, propunha o desaparecimento do Estado unitário e a criação dum Estado Federal com 3 Estados, Portugal, Angola e Moçambique, ficando as restantes colónias com um estatuto autonómico próprio. Cada Estado teria Governo, Assembleia e tribunais próprios. Os órgãos de soberania federal seriam o Presidente da República, o Presidente da Comunidade, a Assembleia da Comunidade e o Supremo Tribunal Federal. Esta solução, a mais estruturada de todas, era apoiada por Adriano Moreira. No entanto, quando Caetano foi Ministro das Colónias ou teve, pela morte de Salazar, o poder de a concretizar, seguiu em frente na política ortodoxa e imobilista do seu predecessor.

O receio do efeito dominó, a defesa da “unidade nacional”, a falta de coragem para decisões difíceis, a ortodoxia salazarista, individualmente ou em conjunto ditaram a opção pela defesa da Guiné. Salazar reforça o dispositivo militar mais cedo que em Angola, lançando os dados para um futuro que haveria de se mostrar bem mais adverso do que alguma vez poderia supor.

 

1963-Abertura da 2ª Frente

No início do ano que vamos tratar, 1963, vai abrir-se mais uma frente, a mais violenta e mortal das três em que o Exército Português se veria envolvido a partir do ano seguinte. De facto, foi a única das três frentes em que foi tomado um quartel do Exército Português (Guiledje, 1973) e em que foram criadas as condições para uma declaração unilateral de independência, reconhecida de imediato por dezenas de países

O ataque ao quartel de Tite, feito por cerca de 150 homens mal-armados (o primeiro tiro da guerra foi uma lança, diria o comandante do quartel, no rescaldo do ataque) valeu mais pelo seu valor simbólico do que pelos resultados militares. Amílcar Cabral disputava à época com outros pequenos grupos nacionalistas, a liderança político-ideológica do combate ao regime colonial. A decisão de partir para a luta armada já tinha sido tomada há algum tempo, mas a insuficiência de meios e a prisão de alguns quadros adiaram a concretização desse desiderato.

Filho de pais cabo-verdianos, Amílcar Cabral nasceu em Bafatá, na então Guiné Portuguesa em Setembro de 1924, onde seu pai, professor, tinha sido colocado. Aos 8 anos seus pais mudaram-se para Cabo Verde, ilha de Santiago, onde terminou a instrução primária. O curso liceal já foi terminado em 1943 no Mindelo, Ilha de S. Vicente, para onde sua mãe e irmãos se mudaram. O período da sua adolescência coincidiu com uma intensa seca, causa de fome generalizada que causou a morte a cerca de 50 000 pessoas.

No ano seguinte mudou-se para a cidade da Praia, onde trabalhou por um ano na Imprensa Nacional, após o que, tendo conseguido uma bolsa de estudos, se mudou para Lisboa iniciando os seus estudos superiores no Instituto Superior de Agronomia. Frequenta a Casa dos Estudantes do Império, onde convive com Mário de Andrade, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos, moçambicano, um dos fundadores da FRELIMO e onde toma contacto com as correntes filosóficas libertárias africanas.

Contratado pelo Ministério do Ultramar, como adjunto dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné, regressa a Bissau em 1952 e participa num recenseamento agrícola que o leva a percorrer grande parte da colónia e a tomar contacto com a confrangedora miséria e atraso das populações. Forma a Associação Desportiva, Recreativa e Cultural da Guiné, aberta a indígenas e assimilados, o que atrai a antipatia do Governador que o obriga a emigrar para Angola. Aí torna-se signatário do “Manifesto de 1956” e nessa condição, também fundador do MPLA.

Em 1955 participa na Conferência de Bandung, onde adquire uma visão mais ampla do movimento independentista africano. Em 1959 funda o PAIGC, que já aparece envolvido na greve e sequente massacre dos estivadores do porto de Pidjiguiti. Conduz de forma brilhante a luta de libertação nacional da Guiné até Janeiro de 1973, quando no dia 20 é assassinado em Conacri, por dissidentes internos, mas onde não está ausente a mão divisionista da PIDE. De facto, segundo alguns autores, a intenção inicial dos conspiradores era sequestrá-lo e entregá-lo em Bissau às autoridades portuguesas juntamente com Aristides Pereira (Secretário Geral do PAIGC à data, mais tarde primeiro presidente de Cabo Verde), também sequestrado nessa noite, sujeito a brutais espancamentos, mas libertado pelo exército da Guiné-Conacri, por ordem de Sekou Touré.

 

Consequências da abertura da frente da Guiné

Uma das intenções declaradas de Amílcar Cabral ao iniciar as hostilidades na Guiné contra o Exército Português, foi o de aliviar a pressão na frente de Angola. Isso não aconteceu, mas a dispersão de efectivos, o aumento da mobilização de jovens e da despesa militar, foram consequências óbvias e inevitáveis.

A nova frente, num terreno muito difícil, aumentou o número de baixas duma forma dramática, não no primeiro ano, mas nos seguintes e a possibilidade de mobilização para a Guiné, passou a constituir o terror dos jovens em idade de incorporação militar. As notícias do atoleiro que passou a constituir esta frente, chegaram mais tarde às outras duas e passaram a ser um factor de desmobilização e desmoralização. Sem dados objectivos, acredita-se que o aumento do número de deserções de jovens metropolitanos e das colónias, a partir de 1963, esteja relacionada com a Guiné

 

Principais acontecimentos políticos na primeira metade de 1963

No início de Janeiro o MPLA abre a frente de Cabinda. No entanto a fraca implantação do movimento entre a população local, determinou o fracasso dessa iniciativa e nunca, durante toda a guerra, a “frente de Cabinda” teve qualquer expressão militar.

Também neste mês começa a ser debatido um projecto de Lei Orgânica do Ultramar redigida por Joaquim da Silva Cunha, que viria a ser Ministro do Ultramar de 1965 a 1973. Esta lei pretendia contrariar a posição da ONU sobre o estatuto das colónias, plasmado na Constituição de 1933. Considerada pelos ultras do regime “muito autonomizante” era na verdade centralizadora e na prática nada mudava de substancial.

A 23 inicia-se oficialmente na historiografia do PAIGC a luta armada de libertação nacional guineense.

No fim deste mês é criada pelo comando da Região Militar de Angola a COMEVAK, destinada a receber e acompanhar os refugiados do Katanga, após o fracasso da tentativa de secessão. Milhares de refugiados civis e militares atravessam a fronteira em Teixeira de Sousa.

No início de Fevereiro, na III Conferência de Solidariedade Afro-Asiática, realizada no Tanganica (mais tarde Tanzânia), presidida por Julius Nyerere, foi pedido o boicote económico e diplomático de Portugal.  

Em Argel é inaugurada a sede do MPLA. O apoio argelino a este Movimento permitiu a Agostinho Neto fazer uma ronda por vários países, publicitando a sua luta e recolhendo apoios. Esse périplo englobou os Estados Unidos, onde Neto se esforçou por contrariar a ideia de ser um movimento marxista.

A 9 deste mês foi aprovado o Manual de Guerra Subversiva, onde pela primeira vez se dá o devido valor à ação psicológica e à valorização das populações que potencialmente ou de facto apoiam a “subversão”. Enquadrava também as guerras coloniais portuguesas no conflito mais vasto Leste/Oeste, da Guerra Fria. Sistematizando todo o conhecimento sobre este tipo de guerra, passou a ser a “Bíblia” do treino e formação dos futuros combatentes.

Em Março, reúne-se a Comissão de Descolonização da ONU, atribuindo absoluta prioridade aos territórios sob administração portuguesa. Apertou-se assim um pouco mais, a malha política nesta instância, contrária aos interesses coloniais do regime.

Um facto político muito importante neste mês, foi a última tentativa de Amílcar Cabral dialogar com Salazar. Propôs em Paris suspender a luta armada, se Portugal desse um sinal de querer resolver pelo diálogo o problema da Guiné. Salazar, um homem profundamente racista, considerava os negros como seres inferiores e, portanto, indignos duma resposta. Sintomático disso foi o comentário tido com Franco Nogueira após a audiência que concedeu a Moisés Tchombé, líder da revolta catanguesa: “-Muito bem informado, sensato, realista, lúcido e compreendendo que a orientação actual vai conduzir a África a um novo colonialismo, muito pior que o de hoje. Gostei do homem. Olhe, promovi-o a branco”

Nunca deve ter promovido Amílcar Cabral, porque nunca se dignou dar-lhe a mínima importância. Como a História haveria de demonstrar, Portugal pagaria um preço elevado por essa arrogância salazarista. Além de tudo o resto, o PAIGC enviaria a Portugal em 1975, uma delegação de segunda linha, para recolher a “carta de alforria” de que aliás não precisava para nada. Apenas há a lamentar que o vexame tenha sido feito não a Salazar, mas precisamente ao homem que defendeu a autonomia ou independência da Guiné, António de Spínola.

A 12 de Março dá-se a deserção do tenente piloto-aviador Jacinto Veloso com o seu avião T6 para a Tanzânia, onde se juntou às forças da FRELIMO. Foi mais tarde ministro da Presidência para os Assuntos Económicos, Ministro da Segurança do governo de Samora Machel e membro do Conselho de Segurança e Defesa do presidente.

O Governo Português, no dia seguinte, 13, envia à ONU uma carta diplomática, contestando a competência da Comissão de Descolonização para se pronunciar ou decidir sobre os territórios ultramarinos de Portugal

No dia 15 passam 2 anos sobre a chacina do 15 de Março no Norte de Angola e para assinalar a “efeméride” a UPA organiza em Leopoldville um evento que conta com a presença do 1º Ministro congolês.

No mesmo dia 15, assume a direcção da PIDE em Angola, o inspector S. José Lopes, cargo que exerceu até ao 25 de Abril. Para a condução da guerra, a informação era vital. Este Inspector conseguiu montar uma vasta rede de espionagem, infiltrar agentes e informadores nos principais centros de actuação e decisão do inimigo, bases militares, sedes políticas e mesmo na guerrilha que actuava no interior, de modo a ter informações actualizadas de todos os movimentos ou intenções da guerrilha, que fornecida aos comandos militares era a base da toda a organização operacional.

No dia 19, guerrilheiros do PAIGC capturam dois navios, o Mirandela e o Arouca, perto de Cacine que mais tarde utilizam para transporte de material e pessoal na Guiné Conacri.

No dia 21 são conhecidas as penas aplicadas aos oficiais que desacataram a ordem salazarista de lutar até à morte quando da invasão do Estado Português Da Índia pela União Indiana e 18 de Dezembro de 1961: O Gen Vassalo e Silva e outros 10 oficiais foram expulsos das Forças Armadas, reforma compulsiva para 5 e meio ano de inactividade para 9. Sem hipótese de defesa ou recurso, este processo, destinado a exorcizar as culpas de Salazar, provocou um trauma e revolta no Exército, catalisadores da participação de muitos desses oficiais no 25 de Abril.

Em Abril, o Congo Leopoldville reconheceu o GRAE, da UPA/FNLA e expulsou do país o MPLA que se mudou para o Congo Brazzaville. Este tipo de divisionismo foi em grande parte responsabilidade da UPA e de Holden Roberto, que se assumia como único representante do nacionalismo angolano. No dia 3 deste mês, Franco Nogueira, MNE de Salazar, anuncia a intenção de negociar um pacto de não agressão com todos os países limítrofes de Angola. Por razões óbvias, nunca passou das intenções.

O mais transcendente acontecimento político deste mês de Abril, teve origem na Igreja. João XXIII publica a encíclica Pacem in Terris, que vinca o interesse desta em acompanhar os conflitos coloniais, com uma referência à liberdade dos povos. O seu sucessor, Paulo VI, dentro do espírito desta encíclica, haveria de receber os três dirigentes nacionalistas das colónias portuguesas, Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Marcelino dos Santos, acontecimento que agastou profundamente Salazar, que chegou a ponderar proibir Paulo VI de visitar Fátima.

Em Maio é nomeado Governador da Guiné, o Comandante Vasco Rodrigues da Armada e um Brigadeiro para comandante do Exército, acabando por gerar um conflito de competências, o que levou à demissão de ambos, substituídos por Arnaldo Schultz que acumulou os dois cargos.

Por razões de estratégia para a futura condução da guerra, registam-se neste mês de Maio, graves discórdias entre dirigentes da Frelimo.

Na Guiné colidem dois aviões militares, tendo morrido um dos pilotos e o segundo aprisionado pelo PAIGC. Este piloto passou vários anos preso e foi mais tarde libertado em Conacri, pelas forças portuguesas executantes da controversa Operação Mar Verde em 1970, de que falaremos em pormenor quando abordarmos esse período.

No capítulo internacional, o acontecimento de absoluto destaque foi a Conferência de Adis Abeba de que resultou a fundação da OUA, Organização da Unidade Africana, pelos representantes de 32 nações africanas independentes. Foi aprovada a Carta da OUA, que estabeleceu as regras para as políticas de libertação dos povos não-autónomos. Ponto importante, reconhecia as fronteiras resultantes da Conferência de Berlim e definia a África para os africanos, independentemente da sua cor.

No fim do mês de Maio, o MNE Franco Nogueira é recebido em Washington por Kennedy e Dean Rusk. Começa aqui a inflexão da política americana relativamente às colónias portuguesas. Kennedy admitiu alguma precipitação nas votações da ONU e no princípio do mês seguinte, o Secretário para os Assuntos Africanos, declarou que os interesses estratégicos americanos recomendavam a continuação da cooperação com Portugal.

Em Junho, por iniciativa de Nasser, dá-se o corte de relações diplomáticas da RAU (República Árabe Unida, união política do Egipto e da Síria) com Portugal, devido à política colonial portuguesa.

Em 10 de Junho deste ano foi pela primeira vez usado este feriado nacional para condecorar militares pela sua participação na guerra, alguns a título póstumo.

O PAIGC utilizou pela primeira vez metralhadoras ligeiras no ataque a Catió, primeiro sinal da crescente sofisticação do seu armamento, que em poucos anos suplantou largamente a do Exército Português.

António Carapito

(continua)