Cardus Edição 142, fevereiro 2025
Sinopse
O artigo anterior abordou a conjuntura nacional e internacional pré 15 de Março de 1961 e também a forma como o regime lidou com esses acontecimentos no plano interno e externo. A seguir à sua eclosão, Salazar iniciou uma intensa campanha de propaganda, divulgando as imagens das chacinas de brancos e negros nos órgãos de comunicação nacionais, internacionais e até na ONU.
Neste artigo vamos abordar as principais ações da UPA no mês de Março e seguintes, traçar um quadro geral do desenrolar dos acontecimentos, o início da contra-ofensiva do Exército Português na reocupação dos lugares, povoações e vilas, partindo duma desorganização quase total e da repressão que se seguiu, tão ou mais violenta e bárbara que a da UPA, naquela madrugada fatídica.
António Carapito escreve de acordo com a antiga ortografia
(1) Fazenda Nova Aurora, madrugada de 15 de Março de 1961, região dos Dembos, Norte de Angola:
Maria Aurora foi acordada ao alvorecer, pelas batidas na porta de casa e o chamado do seu criado negro, Francisco Kalussendo. O marido tinha trabalhado até tarde no armazém e não acordou. No quarto ao lado dormiam os dois filhos do casal. Estranhou ser chamada tão cedo, mas abriu a porta. Não chegou a dizer nada, apenas soltou um grito de terror, Francisco matou-a com uma catanada. Uma avalanche de negros possessos, armados de catanas, entrou pela casa dentro e em poucos instantes trucidou a família inteira. O marido de Aurora não teve tempo de chegar à caçadeira, tomada por Francisco. No dormitório, duas dezenas de contratados bailundos tentaram escapar, mas poucos fugiram a tempo, a maioria foi retalhada à catanada, com os cadáveres espalhados dentro e fora do edifício. Decapitaram alguns e alinharam as cabeças à porta, como troféus. Trouxeram os corpos da família para o terreiro e mutilaram-nos selvaticamente. Tocaram fogo à casa, ao armazén e dormitório e de seguida o grupo ululante, inebriado de sangue, pegou no camião da Fazenda e rumou à vila de Quibaxe, para ajudar a tomá-la.
Holden Roberto planeou longamente o 15 de Março no Congo Brazaville, mas não planeou o pós 15 de Março. Às 6,15h da manhã, segundo as suas palavras “começou a festa” (N´Ganga, Memórias de Holden Roberto, I Vol.). Em simultâneo em todo o Norte de Angola, a UPA ataca fazendas, postos administrativos, aldeias, vilas e cidades. Sem dispositivo militar que contenha a sublevação, esta alastra rapidamente e em poucos dias foram tomados quase todos os aglomerados onde se fazia sentir a presença de portugueses brancos. Oito distritos são afectados em maior ou menor grau: Luanda, Kuanza Norte, Bengo, Kuanza Sul, Uíge, Zaire, Malange e Cabinda. Em nenhum destes, com excepção de Luanda (cidade), havia qualquer unidade militar, devidamente equipada e treinada para o tipo de ação em curso. A Marinha não dispunha de uma só lancha para patrulhar o Rio Zaire e a Força Aérea não tinha uma única base, sendo os aviões enviados da Metrópole. Não havia logística, um sistema de comunicações, uniformes camuflados ou armamento capaz de decidir um combate. A tropa estava equipada com a espingarda de repetição Mauser, de fabrico alemão, do princípio do Séc. XX. Uns poucos soldados estavam equipados com a pistola metralhadora FBP, de fabrico nacional, uma arma considerada de manuseio perigoso. No dia da revolta, existiam em Angola sete companhias do Exército, cinco das quais tropas nativas. A Marinha dispunha de uma fragata, dois patrulhas e um navio hidrográfico. A Força Aérea dispunha de alguns aviões de reconhecimento PV-2 Harpoon e PV-2 Neptune, destacados da base da Ota. No total, incluindo uma Companhia Móvel da PSP, havia em Angola 9000 homens, 7800 segundo outras fontes, para cobrir uma área sublevada bastante maior que Portugal. Isto depois de Salazar ter sido repetidamente avisado com grande antecedência, a suficiente para ter no terreno forças preventivas de dissuasão.
No mês de Março a UPA realiza inúmeras ações armadas em todo o Norte de Angola, levando ao abandono de muitas localidades. Mas em outras, a resistência dos habitantes, por vezes em condições muito precárias e difíceis, com cercos prolongados, isolados da capital por picadas intransitáveis, originou episódios de grande heroísmo, em condições de grande dureza e dificuldades extremas. Estas foram tanto maiores, quanto mais pequenos eram os aglomerados e mais próximos estavam da fronteira. Com algumas excepções, foram abandonados ou assaltados e tomados, quase todos os postos administrativos. Foram excepção, de norte para sul, Bessa Monteiro, Mucaba, Bungo, Nova Caipemba, Forte República, Cuale, Quiculungo, Aluquém, Pango, Gombe, Samba Caju e Lucala. Ficou especialmente conhecida em Angola a resistência em Mucaba, onde 30 homens mal-armados resistiram dentro duma pequena capela, várias horas a cerca de 2000 atacantes, até serem salvos pela Força Aérea que realizava naquela altura uma das primeiras ações de combate.
Das cidades resistiram Carmona e Salazar, onde organizar a defesa foi muito mais fácil que nas sedes de concelho. Nestas, com menores meios e efectivos, foram abandonadas Cuimba, Bembe e Ambriz. Todas as outras, Maquela do Zombo, S. Salvador do Congo, Quimbele, Sta Cruz, Sanza Pombo, Songo, Negaje, Cangola, Camabatela, Quibaxe, Caxito, Catete e Dondo, organizaram defesa e resistiram até o Exército iniciar a campanha de retoma de todo o Norte.
A chacina provocou, segundo algumas estimativas, a morte de cerca de 800 brancos e 6000 negros, sobretudo da etnia bailundo. Os números reais nunca foram conhecidos, por razões óbvias, mas terão sido provavelmente bem maiores. A principal causa foi a surpresa, ninguém foi avisado, ninguém sabia de nada, não havia dispositivo militar, não havia meios nem efectivos para a defesa civil. Apenas Salazar e um círculo restrito sabiam, mas só agiram depois dos acontecimentos.
A maioria dos postos administrativos foi tomada pelos assaltantes, os chefes de posto e pessoal auxiliar mortos. O mesmo aconteceu em quase todas as fazendas de café, nos pequenos lugarejos e comerciantes isolados.
Contraofensiva do Exército
Com uma lentidão exasperante, face à delicadeza e urgência da situação insurrecional no Norte de Angola, o Exército Português, num trabalho que deveria estar concluído meses antes, começa a organizar a sua estrutura operacional para fazer face à situação numa primeira fase e contra-atacar depois, retomando o completo controle no terreno. Enquanto isso a UPA, com armamento cada vez mais sofisticado continua a atacar e tentar tomar vilas e sedes de concelho.
No dia 16 de Março chega a Luanda a 1ª Companhia de Pára-quedistas, em Abril a 2ª e em Maio a 3ª. Em 18 de Março, de forma quase artesanal, têm inicio as primeiras ações da Força Aérea. Alguns aviões PV-2, aviões de patrulha, adaptados a bombardeiros, fizeram no Norte ações de apoio a povoações cercadas. Foram requisitados aos aero-clubes monomotores Auster, Piper Cubs e Voyagers, formaram-se as chamadas Forças Aéreas Voluntárias, que realizaram ações de combate, reconhecimento e apoio a zonas isoladas, lançando pelas janelas granadas de mão sobre os sitiantes.
No dia 21 de Março chega a Luanda o Almirante Lopes Alves, Ministro do Ultramar, para aferir “in loco” a situação global da colónia. No regresso elabora um relatório onde prevê uma prolongada guerra de guerrilha, classifica a situação militar como grave e tece duras críticas às figuras gradas da “nomenclatura” colonial, acusando-as de responsáveis pela situação, por se oporem a reformas transformadoras da insustentável situação de exploração dos negros.
No mesmo dia chegam a Luanda 3500 residentes no Norte de Angola, evacuados através de uma ponte aérea. No dia seguinte, as autoridades organizam (ou permitem) uma manifestação contra o cônsul dos EUA, de protesto pela política do governo Kennedy, que no anterior dia 15 tinha votado na ONU contra a política colonial portuguesa, ao lado da URSS.
No final deste mês começam em Lisboa as movimentações do Gen Botelho Moniz, Ministro do Exército, que culminam na tentativa gorada de substituir Salazar, no dia 13 de Abril. Crê-se que Botelho Moniz tinha o apoio dos americanos, já que tivera algumas reuniões prévias com Charles Elbrick, embaixador dos EUA em Portugal. Botelho Moniz é substituído na pasta, pelo próprio Salazar. No dia seguinte este pronuncia-se oficialmente sobre os acontecimentos de 15 de Março, profere a célebre frase “para Angola rapidamente (sic) e em força”.
É constituído no dia 28 o primeiro corpo de voluntários civis para actuação no Norte de Angola, que dará mais tarde origem à Organização Provincial de Voluntários de Defesa Civil, OPVDCA, que alguns anos depois será constituída, na sua maior parte, por ex-militares.
No fim deste mês é preso em Luanda o Cónego Manuel das Neves que, como vimos atrás teve responsabilidade na organização do 4 de Fevereiro.
No início do mês de Abril há um recrudescimento da actividade militar da UPA, com vários ataques encadeados. No dia 2 emboscam uma coluna militar, causando sete mortos, entre eles dois oficiais, um capitão e um tenente. No dia 10 atacaram o Úcua, na estrada Luanda/Carmona com o massacre de 13 brancos. No mesmo dia atacam trabalhadores bailundos numa fazenda em Quitexe, provocando vários mortos. Dois dias depois atacam a povoação de Lucunga, massacrando a maior parte da população branca. No mesmo dia acontece o primeiro ataque em Cabinda, provocando 3 mortos a uma patrulha militar, a morte de um fazendeiro europeu e o assalto a uma fazenda. A UPA tinha aqui terreno favorável, a densa floresta do Maiombe.
No dia 18 parte para Angola, por via aérea, o segundo contingente militar pós 15 de Março, formado por tropas pára-quedistas. Com o adensar dos efectivos militares, começa a criar dificuldades a ausência duma quadrícula, a divisão do território em zonas de ação. Acresce a ausência de administração civil, no início da década, principalmente na região afectada. Nos Dembos a presença do Estado era assegurada pelos postos administrativos, com um administrador, um secretário e alguns cipaios que se encarregavam da cobrança de impostos, junto das populações, por vezes com alguma brutalidade. À medida que as Forças Armadas iam retomando as zonas ocupadas pela guerrilha, a função administrativa, médica, educacional etc, foi sendo assumida pelo Exército, o que condicionou posteriormente a sua actividade operacional.
Durante os meses de Abril e Maio, começaram a chegar a Angola cada vez mais efectivos militares, a par de intensa actividade de guerrilha. Foi a partir daqui que se iniciou a contraofensiva do EP na reconquista das áreas controladas pela UPA. Contrariamente à opinião do Gen. Beleza Ferraz que, no relatório final da sua visita a Angola na segunda metade de Março, para aferir da realidade no Norte de Angola, dizendo que em breve estaria contida a sublevação e breve regressaria a paz e a tranquilidade, a verdade é que começava, após a reconquista do Norte e a sua “pacificação”, uma guerra de guerrilha que iria durar 14 longos anos. Nas aldeias, vilas ou cidades onde o Exército reassumia a soberania, com ou sem a ajuda de civis, na “limpeza do terreno” cometeram-se tão grandes ou maiores atrocidades que as da UPA na manhã de 15 de Março.
(2) Sanzala Quivula, Damba, início da tarde 31 de Maio de 1961:
Lussenga Catolo e sua mulher Lúcia Catolo, estavam a cuidar da lavra de mandioca, à beira da picada para a Damba, a umas centenas de metros da sanzala. O ruído de carros a aproximarem-se não os incomodou. A UPA tinha-se apropriado dos carros dos colonos mortos e por isso não se alarmaram. Aparecem três camiões, com soldados e civis armados e um deles pára junto à lavra. Saem alguns homens que se dirigem na sua direção. Em pânico, largam tudo e correm para a cubata. São abatidos pelas costas com vários tiros. Os soldados voltam para o camião e rumam à sanzala que cercam, atirando sobre tudo o que mexe, homens, mulheres com crianças ao colo e velhos que tentam escapar, num desespero medonho. No final da carnificina, eufóricos, incendeiam a aldeia. O comandante da coluna, um sargento, ordena “esta já está, vamos à próxima”
Os episódios (1) e (2) são fictícios, ficcionados, mas suficientemente próximos de casos reais e por isso representativos da realidade brutal que se viveu naqueles dias. A bestialidade da ação da UPA no 15 de Março, teve o seu reverso na vingança cega que se seguiu à reocupação e durante ela. Não há inocentes em nenhum dos lados. O tribalismo da ação inicial, ao atacar indiscriminadamente brancos e negros não bakongos, especialmente os trabalhadores contratados de etnia bailundo do Planalto Central de Angola, formou anti-corpos nesta etnia que se mantêm até hoje. Recomendada para isso, a UPA tentou atalhar ao tribalismo, formando a Frente Nacional de Libertação de Angola, numa operação mais cosmética que outra coisa. O regime angolano do MPLA nunca reconheceu o 15 de Março como o início da luta armada de libertação, por duas razões principais: a barbárie primitiva que o caracterizou e por ter liquidado muito mais negros que brancos. De salientar que o regime de contrato era, por si só, uma violência esclavagista a que esses trabalhadores estavam sujeitos no regime colonial da época. É um facto que muitos bailundos tomaram o partido dos colonos, mas na verdade foram excluídos da preparação da revolta e visados desde logo como alvos a abater.
Hoje a memória histórica do 15 de Março entre o povo bailundo, é tão ou mais traumática que a do povo português.
António Carapito
(Continua)