Cardus Edição 141, janeiro 2025


GASTRONOMIA Tradicional

Maria Fernanda Gomes

Mas o fruto dos frutos, o único que ao mesmo tempo alimenta e simboliza, cai dumas árvores altas, imensas, centenárias, que, puras como vestais, parecem encarnar a virgindade da própria paisagem. Só em Novembro as agita a inquietação funda, dolorosa, que as faz lançar ao chão lágrimas que são ouriços. Abrindo-as, essas lágrimas eriçadas de espinhos deixam ver numa cama fofa a maravilha singular de que falo, tão desafectada que até no próprio nome é doce e modesta – a castanha. Assada, no S. Martinho, serve de lastro à prova do vinho novo. Cozida, no Janeiro glacial, aquece as mãos e a boca de pobres e ricos. Crua, engorda os porcos, com a vossa licença…

TORGA, Miguel - Portugal: Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes), 1950

CREME DE CASTANHAS



Receita

1kg de castanhas descascadas (podem ser congeladas), 1/2l de leite, 1/2l de caldo de carne, 1dl de azeite, hortelã e/ou manjericão, sal e pimenta.

Cozer as castanhas no caldo de carne e a meio da cozedura vai-se acrescentando o leite quente; tempera-se com sal e pimenta. Passar pelo passe-vite. Retificar de sal. Em cada prato colocar 2 castanhas inteiras ou não, mas sempre hortelã.

Por vezes polvilhar com canela.

Pode-se juntar cebolinho partido muito pequeno ou coentro migado ou outras variações de ervas conforme o gosto ...

Nota: as quantidades dão, à vontade, para 8 pessoas


A Castanha

Pensa-se que a origem do castanheiro seja a Ásia Menor, Balcãs e Cáucaso.
Chamada o “pão dos pobres”, a castanha foi a base da alimentação europeia até à introdução da batata. Servia para confeção de sopas e doces e de acompanhamento de carnes. Era também utilizada na alimentação dos animais.
Nutricionalmente muito rica, pode ser consumida cozida, assada, mas também utilizada como acompanhamento de pratos, quer de peixe quer de carne, na confeção de sopas, purés e estufados, panificação e doçaria.

Quentes e Boas!

Pregão que se ouvia por Lisboa, acompanhado de cheiro e fumo que corria devagar para o azul do céu, mas que confortava no despontar do frio. Dos assadores, um pouco por toda a cidade, passavam para as mãos de quem as desejava, em pacotes cónicos feitos nas folhas das páginas amarelas ...

Reza a tradição que “No dia de São Martinho , pão, castanhas  e vinho!” ou “No dia de São Martinho vai à adega e prova o teu vinho”, vinho novo  acompanhado de castanha assada. Mas a minha memória liga-a mais à jeropiga, e à castanha pilada a caminho do Liceu, sempre a roê-la...

Verão de São Martinho

No ano 337, num dia frio e chuvoso, Martinho, um militar do exército romano, ia a cavalo, quando encontrou um mendigo a tremer de frio que lhe pediu uma esmola. Como não tinha nada para lhe dar, cortou a sua capa a meio e cobriu-o com uma das partes. Mais tarde encontrou outro mendigo e ofereceu-lhe a outra metade. Desprotegido do frio, seguiu e, como por milagre, as nuvens escuras desapareceram, o sol brilhou e durante 3 dias o bom tempo manteve-se. E assim nasceu o Verão de São Martinho. E como todos os anos, por volta dessa altura, o tempo melhora, os magustos proliferam um pouco por todo o lado, particularmente a 11 de novembro, dia em que o Santo foi sepultado em Tours. Martinho abandonou a guerra para se tornar num monge católico e fazer o bem, tornando-se num dos santos mais populares da Europa!

Maria Fernanda Gomes, dezembro 2024