Cardus Edição 140, dezembro 2024
A Beatriz Soares é uma jovem Cineasta que, pelo seu talento, determinação, paixão e entrega começa a destacar-se no mundo da Sétima Arte.
Nascida em Lisboa no dia 7 de fevereiro de 2001, iniciou os estudos em Cinema na Escola Artística António Arroio, no curso de Comunicação Audiovisual - Cinema e Vídeo, e concluiu o Curso Anual de Realização para Cinema e Televisão na ETIC, em 2020. Foi aluna dos cursos de Realização e de Imagem na Escola Superior de Teatro e Cinema, especializando-se nesta última área. Concluiu a Licenciatura, em Erasmus, na Szkola Filmowa w Lodzi, na Polónia.
A sua biografia conta já com diversos trabalhos realizados. Foi Diretora de Fotografia e Colorista do documentário académico Pelo Sim Pelo Não, de Laura Andrade, selecionado pelo IndieLisboa e premiado nos festivais Porto Femme e Olhares do Mediterrâneo. Desempenhou as funções de 1ª Assistente de Imagem e Colorista em Agora Frenesim, filme ficcional da mesma realizadora, selecionado pelo IndieLisboa, em 2023. Trabalhou recentemente nos filmes de Pedro Ramalhete, João Botelho e João Nicolau, onde se estreou no departamento de Guarda-Roupa.
Admiro muito o seu trabalho!
Obrigada, Beatriz, pela tua colaboração.
Aline Cardeira
1 - Beatriz, ainda muito nova já sabias que era o cinema o caminho por onde querias seguir. Quando e como se deu este click?
O primeiro click deu-se aos 14 anos, quando me começou a preocupar a escolha que iria tomar na entrada para o secundário. Tinha várias disciplinas que me interessavam, gostava de aprender os conteúdos, mas não me conseguia imaginar a trabalhar em nada que as envolvesse. Foi nessa altura que, ao comentar este meu desassossego com a minha irmã, começámos a pesquisar outros cursos, profissionais e artísticos. Encontrámos a Escola Artística António Arroio, que me entusiasmou de imediato, com o curso de Comunicação Audiovisual, no qual constava a especialização em Cinema e Vídeo. Penso ter sido mesmo um “amor à primeira vista”. Com aquela idade, nunca me tinha sido apresentada essa possibilidade, o mundo do Cinema parecia-me totalmente inacessível e distante.
As nomenclaturas dos outros cursos, mais habituais e lecionados em todas as escolas, pareciam-me apenas uma seleção lógica de disciplinas; nenhuma se apresentava como um caminho certo para mim, como um passo em frente. Cinema era diferente, era concreto e entusiasmante. Todos os pensamentos que tive nesse instante de “descoberta” foram felizes, daí ter começado a desejar isso para mim.
2 - É costume afirmar-se que Portugal é um país pequeno para tanto talento. Como encaras esta afirmação? Foi de alguma forma preocupação para ti?
A meu ver, a quantidade vasta de talento em Portugal nunca poderá ser vista como algo negativo ou preocupante. Para mim, é, sim, verdadeiramente inspirador e uma fonte de motivação ver onde podemos chegar, o que podemos alcançar, tudo aquilo que podemos criar.
O que gera essa afirmação, e que é verdadeiramente preocupante, são as ainda pouquíssimas oportunidades que nos são dadas (incluíndo nisto as várias formas de arte) e a falta de investimento que é atribuído àquilo que fazemos. Estes desafios nunca serão remediados com a competitividade que essa ideia poderá gerar, ou com o receio de não haver lugar para nós.
Acredito que, especialmente numa área artística e criativa, a individualidade será sempre essencial e insubstituível.
3 - Já tens trabalho reconhecido na praça e, recentemente, ganhaste um prémio. Podes falar um bocadinho sobre isso?
Fui a Diretora de Fotografia e Colorista num documentário académico, que filmámos no 2º ano de Licenciatura da Escola Superior de Teatro e Cinema, intitulado Pelo Sim Pelo Não. Este projeto foi iniciado pela Laura Andrade, Realizadora; pela Sofia da Costa, Argumentista; pelo Luís Vila-Lobos, Diretor de Produção; ao qual me juntei na área de Imagem.
Recentemente recebeu o prémio Inatel, após ter sido selecionado para a programação do Festival Olhares do Mediterrâneo, tendo já recebido, anteriormente, o Prémio Festival, pela Porto Femme e, ainda, selecionado para o IndieLisboa.
Posso afirmar que tenho um enorme carinho por este filme, não apenas pelo tema, mas por todo o processo de filmagem que foi absolutamente contrastante daquilo que já tinhamos feito até à altura.
O documentário acompanha quatro amigas numa ida à praia. E aquilo que as “difere” da grande maioria das mulheres que estão naquele mesmo espaço é que elas não encaram a depilação como uma obrigação, mas como uma escolha individual.
Um comentário que ouvi com frequência sobre este filme é que ele é sobre a Liberdade. E aquilo que encaro como mais especial e que, talvez por isso, se tenha destacado nos festivais por onde passou, é a capacidade deste filme de nos relembrar que, por vezes, as normas que nos são impostas e que seguimos apenas por conformismo, não vão de encontro com aquilo que somos e que podemos escolher ser. Este questionamento devolve-nos algum controlo e liberta-nos.
4 - Num mundo atual, onde a panóplia temática é infinita, há algum tema específico a nortear os teus trabalhos?
Mais do que temas específicos, penso que aquilo que mais me entusiasma no Cinema, não só no momento de preparação e produção de um filme, mas no seu produto final, é poder mostrar uma realidade que não nos afete a todos, de forma global, mas a um grupo específico de pessoas. É poder dar a conhecer preocupações, desconfortos ou reflexões, que, apesar de não fazerem parte da vida de todos, é uma enorme parte da vida de alguém. Aquilo que é vivido em silêncio.
O Pelo Sim Pelo Não enquadra-se nisso. Não procurando julgar quem o assiste, faz o espectador questionar e avaliar os seus próprios preconceitos: a sua origem, de que forma e porque é que o afeta, se está ou não disposto a mudá-lo.
Gosto de pensar que cada um de nós tem a capacidade de melhorar o mundo, podendo ser o “mundo” qualquer espaço, a nossa própria casa, mas que todos causamos um impacto. Penso que é algo que procuro sempre que crio ou faço parte de qualquer projeto.
5 - Onde te inspiras e como é o teu processo criativo?
Considero-me uma pessoa extremamente visual. E, por isso, ter escolhido especializar-me em Imagem, durante o curso de Cinema.
Aquilo que me inspira mais são as cores, texturas e os ambientes luminosos. A forma como eles condicionam a nossa perceção e como conduzem a história. As emoções que se criam, a forma como aquilo que nos rodeia nos pode condicionar, libertar, reconfortar ou restringir.
Diria que o meu processo criativo tem sempre início aí, numa imagem. Não inicia tanto pela caracterização de personagens ou por qual será o desfecho de uma história, mas pelo que se sente através do não verbal; de um movimento ou olhar. O restante, todo ele também extremamente relevante, vai surgindo depois, naturalmente. Tudo tem o seu momento de reflexão, de questionamento e de dúvida. É um processo que encaro, simultaneamente, com entusiasmo e seriedade.
6 - Para um jovem que queira enveredar por esta arte, que conselhos lhe darias?
Diria que é absolutamente fundamental saber trabalhar em equipa, com pessoas que por vezes têm ideias diferentes das nossas, e encontrar leveza nos dias e situações que mais nos desafiam; que é importante reconhecer e diferenciar os momentos de trabalho e de descanso; que a criatividade é, também, muito necessária na criação de soluções eficazes em tempo limitado.
E aconselharia a deixarem-se surpreender por tudo aquilo que é o Cinema. Vai muito além daquilo que nos é habitualmente apresentado.
O percurso, grande parte das vezes, não é linear. E, por vezes, na grande diversidade de funções que fazem parte desta área, podemos acabar por descobrir que aquela que mais se enquadra connosco, não é a mesma que nos levou a começar.