Home Cardus Edição 149, setembro 2025

DIREITOS HUMANOS

Ana Suspiro


Constituição da República Portuguesa

Princípios fundamentais

Artigo 9º

(Tarefas fundamentais do Estado)

São tarefas fundamentais do Estado:

[...]

1.e) Proteger e valorizar o património cultural do povo português, defender a natureza e o ambiente, preservar os recursos naturais e assegurar um correto ordenamento do território;


O AMOR DE UMA RAIANA À SUA ALDEIA: DO SONHO À “REALIDADE VIVA”

Apesar da proteção e valorização do património cultural ser uma tarefa fundamental do Estado,  o professor Guilherme d’Oliveira Martins, no seu ensaio “Património Cultural: Realidade Viva” entende o património como uma realidade viva, em constante transformação, e que exige responsabilidade coletiva na sua preservação.

Por vezes, essa responsabilidade coletiva é assumida de forma individual, a partir de uma vontade muito forte ou, como revela Amélia Manso, a partir de um sonho “…de um dia devolver a dignidade, a identidade e a beleza” à Igreja Matriz da sua querida Aldeia do Bispo, como se lembrava dela na sua juventude.

Amélia Manso; Igreja Matriz da Aldeia do Bispo (antes e depois da intervenção)

Amélia Manso, tem 62 anos, é natural e está a viver na Aldeia do Bispo, uma aldeia do interior do nosso País junto à fronteira com Espanha, também conhecida como a “Princesa da Raia”. Talvez tenham sido as “ganas” da convivência transfronteiriça com “nuestros hermanos” que lhe deram a energia e persistência para a concretização do sonho de restituir à Igreja de São Miguel Arcanjo o seu altar original.

Conta-nos que em 1973, contra a vontade da maioria da população, foram retirados todos os elementos de maior importância desta igreja, que reportavam à época da sua construção em 1779 (como indica a inscrição em carateres romanos no lintel do pórtico): o retábulo, os altares laterais, o púlpito e a pia batismal.

É com tristeza que Amélia recorda “Estava tudo amontuado para ser destruído, mas felizmente alguém com visão separou as peças principais e fotografou-as. O que possibilitou recuperá-las: a pia batismal, retirada de um monte de entulho foi levada para um jardim particular numa aldeia vizinha. O pé da mesma pia, que se encontrava numa rua de uma aldeia espanhola (Navas Frias) a proteger a quina de uma casa. “Sempre que me sentava naqueles bancos da Igreja o meu pensamento era cuidar dela. Foi meu grito de revolta!”, confessa.

Foi então que partilhou o sonho com uma vizinha e depois, muito nervosa, com população da aldeia no final de uma missa. Rostos surpreendidos, duvidosos…mas a medo bateram palmas.  “Segui em frente!”. Muniu-se da memória coletiva, de alguns registos fotográficos da época e de muita determinação que nunca a deixaram desistir.

Como em todas as obras, surgem imprevistos e dificuldades. Não se pensava ter de refazer o teto do presbitério, o piso do mesmo, todo o sistema elétrico “… umas coisas levavam a outras… a verdade é que se tomaram decisões acertadas. E uma obra desta só se faz uma vez na vida!”

Mas o maior obstáculo não foram as obras, mas sim os holofotes direcionados que reacairam sobre a Amélia, a pressão dos olhares curiosos…”uma pressão silenciosa que, em determinados momentos, se tornou ruidosa...”.

A decisão de acompanhar a obra a par e passo até ao fim foi, sem dúvida, a garantia do sucesso. Envolveu todos os profissionais da região com o compromisso de estar tudo pronto em finais de julho e ninguém falhou. É com emoção que recorda “Todos foram excecionais e abraçaram o projeto com entusiasmo e profissionalismo. As diferenças cada dia que passava eram tão grandes que os próprios tinham vontade de fazer melhor e melhor…. sempre com uma palavra minha de incentivo e elogios ao trabalho de quem estava a ajudar a realizar este sonho!”

No fim todas as peças encontraram o seu lugar de origem na Igreja de São Miguel Arcanjo e dentro dos prazos a que Amélia se comprometeu para regozijo do povo da aldeia, o qual deu o apoio financeiro necessário através de vários peditórios. “Felizmente, tivemos uma dúzia de pessoas conscientes dos valores avultados da obra que colaboraram de forma excecional. E a Camara Municipal do Sabugal também contemplou a obra com uma boa verba.”

Estava tudo pronto a tempo e horas para a Missa Solene em Honra da Nossa Senhora dos Milagres, nas festas do mês de Agosto, que contou com apresença do Conego Fernando Afonso e  do Padre Carlos Manso Fernandes,  a que se seguiu a procissão com Nossa Senhora engalanada como nunca antes fora vista.

Também a decoração do andor de Nossa Senhora dos Milagres e da igreja foi idealizado e concebido pela Amélia Manso. A cerimónia de oferendas a N. S. dos Milagres recupera uma tradição antiga: o pão, o vinho, a imagem e as alabardas

“As reações não podiam ser melhores. Um trabalho de excelência, disseram! Se Deus me der saúde não vou ficar por aqui, contem com mais projetos sempre em prol da minha querida Aldeia do Bispo. Os lugares são o espelho de quem lá vive e por mim, a minha aldeia nunca irá perder o título de Princesa da Raia!”, conclui Amélia com o sentimento de dever cumprido e de um sonho realizado.

Voltando às palavra de Guilherme d’Oliveira Martins com que iniciámos esta crónica “Ter memória, diz-nos, é respeitarmo-nos, através da defesa, da proteção e da preservação do que é de sempre.”

(Mais fotos de Tiago Manso - Facebook)

[Escrevi esta crónica a pedido da minha amiga Elisabete Pereira, mordoma das Festas em Honra da Nossa Senhora dos Milagres de 2025, na Aldeia do Bispo, no Sabugal, em reconhecimento e homenagem a Amélia Manso pela preservação da memória do, muitas vezes, esquecido Interior do nosso Portugal profundo]