Home Cardus Edição 147, julho 2025

DIREITOS HUMANOS

Ana Suspiro


Constituição da República Portuguesa

Capítulo II

(Direitos e deveres sociais)

Artigo 71º

(Cidadãos portadores de deficiência)

1. [...]

2. O Estado obriga-se a realizar uma política nacional de prevenção e de tratamento, reabilitação e integração dos cidadãos portadores de deficiência e de apoio às suas famílias, a desenvolver uma pedagogia que sensibilize a sociedade quanto aos deveres de respeito e solidariedade para com eles e a assumir o encargo da efectiva realização dos seus direitos, sem prejuízo dos direitos e deveres dos pais ou tutores.

3. O Estado apoia as organizações de cidadãos portadores de deficiência.

CAFÉ JOYEUX: UMA HISTÓRIA DE EMPREENDEDORISMO INCLUSIVO

Numa recente visita a Paris, enquanto descia a icónica Avenue des Champs-Élysées, deparei-me com o Café Joyeux servi avec le coeur e uma inscrição na porta com um convite para tomar uma chávena de alegria: Vous prendrez bien une tasse de joie?. Infelizmente, por ser domingo, estava fechado e limitei-me a apreciar mais uma das belas montras lado-a-lado com as famosas griffes da moda Chanel, Dior, Yves Saint Laurent.

Sabia da existência de um Café Joyeux, em Lisboa, frente à Assembleia da República, mas desconhecia a sua dimensão internacional. Tal facto aguçou a minha curiosidade para conhecer os bastidores de um projeto que dá resposta à integração no mercado de trabalho de pessoas com dificuldades intelectuais e do desenvolvimento, um problema silencioso, mas estrutural.

Com efeito, na União Europeia cerca de 100 milhões de pessoas têm alguma forma de deficiência e apenas metade estão empregadas, continuando a enfrentar formas múltiplas e interseccionais de discriminação em todos os domínios da sua vida. O acesso ao emprego é um pilar fundamental para que estas pessoas possam exercer os seus direitos fundamentais em pé de igualdade e ter uma participação plena e efetiva em todos os domínios da vida e da sociedade. Continua a ser pedido aos Estados Membro da União um maior esforço para garantir o seu acesso a uma vida autónoma, como preconiza a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CNUDPD) e a Estratégia sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência 2021-2030.

O Café Joyeux é um exemplo de como dar resposta a este desafio e fá-lo bem e com Alegria!

 

Como surge este projeto em Portugal?

Surge através da Associação VilacomVida, uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) portuguesa, fundada em 2016, com a missão de aproximar a sociedade da diferença e promover a inclusão plena de pessoas com dificuldades intelectuais e do desenvolvimento (DID), como a trissomia 21, perturbações do espectro do autismo, entre outras.

Motivada pela consciência de uma realidade crítica, a VilacomVida nasceu para dar resposta a um problema silencioso, mas estrutural: no distrito de Lisboa, estima-se que existam cerca de três mil jovens com perturbações ligeiras do desenvolvimento intelectual que, ao concluírem a escolaridade obrigatória, se deparam com a ausência de soluções adequadas para o seu futuro. Sem oportunidades de ocupação ou de integração no mercado de trabalho, muitos destes jovens enfrentam o isolamento e a inatividade. Esta situação impacta fortemente as suas famílias - frequentemente, um dos pais é forçado a abandonar a sua atividade profissional para garantir o acompanhamento necessário, agravando contextos de vulnerabilidade económica e emocional, sobretudo em famílias monoparentais.

Foi desta realidade que surgiu a vontade de criar uma resposta estruturada, sustentável e verdadeiramente inclusiva - uma abordagem centrada na valorização da fragilidade através do trabalho, da dignidade e do reencontro com a sociedade.

Dessa visão nasceu o projeto piloto CafécomVida, um conceito de restauração inclusiva desenvolvido pela VilacomVida que pretendia criar oportunidades reais de formação e emprego para pessoas com DID, em contextos profissionais exigentes, mas com apoio e orientação adequados.

E esta ligação a França, como aconteceu?

Em 2021, tomou uma nova forma com o encontro entre Filipa Pinto Coelho, cofundadora e presidente da direção da VilacomVida, e Yann Bucaille Lanrezac, fundador dos Café Joyeux, uma marca francesa com uma missão semelhante. Dessa conversa nasceu uma parceria sólida, que culminou na primeira internacionalização da marca Café Joyeux e na abertura do primeiro café-restaurante solidário e inclusivo em Portugal, no bairro de São Bento, em Lisboa. Este espaço, como todos os que se seguiram, conta com uma equipa composta maioritariamente por colaboradores com DID - os équipiers Joyeux.

Um dia, acreditamos, a diferença já não se verá - fará genuinamente parte de nós. Até lá, continuaremos a construir esse caminho.

Hoje a VilacomVida é mais do que um negócio social…

Somos empreendedores, com o nosso negócio social e inclusivo Café Joyeux Portugal, que conta atualmente com cinco cafés-restaurantes na Grande Lisboa e uma loja online.

Somos formadores, através da academia que criámos para capacitar jovens com algum tipo de diferença.

Somos facilitadores, ajudando empresas a dar os primeiros passos no recrutamento inclusivo, através do programa Follow-Up.

E somos sonhadores, porque acreditamos que a inclusão se constrói com ação, com convicção e com esperança.

Qual a origem e o conceito do Café Joyeux?

Foi criado em França, em 2017, por Yann e Lydwine Bucaille. O Café Joyeux é uma cadeia de cafés-restaurantes inclusivos que emprega pessoas com deficiência intelectual, como trissomia 21 ou autismo, em funções de baristas, serviço, caixa e cozinha. Opera num modelo rentável, com contratos adaptados (17–35 h/sem) e supervisão especializada, visando mudar a perceção da sociedade sobre o potencial dessas pessoas.

Em Portugal existem outros espaços para além da Loja de São Bento e a Loja Online?

A primeira unidade portuguesa abriu em Lisboa (Calçada da Estrela/São Bento) a 20 de novembro de 2021, com 9–12 colaboradores com DID (Dificuldades Intelectuais e do Desenvolvimento). Atualmente temos 6 espaços: na icónica “Casa das Riscas” em Cascais; no edifício da AGEAS, no Oriente; no edifício da Cofidis, em Telheiras. Mais recentemente, abrimos o primeiro café-restaurante inclusivo numa faculdade, a Nova SBE, em Carcavelos - o 5.º da nossa rede.

100% das receitas contribuem para o desenvolvimento dos nossos cafés-restaurantes e reinvestidas diretamente na abertura de novos espaços. Os produtos são frescos e da estação e preparados, todos os dias, nos nossos espaços. São confecionados com o coração pelos nossos colaboradores.

A marca tem sido reconhecida através de prémios e parcerias…

A marca lançou a sua própria marca de café (grãos e cápsulas), cujos lucros são reinvestidos no crescimento e são produzidos Também marca presença como café oficial das Festas do Mar em Cascais e fornece serviço de catering a artistas e staff, com recurso a bicicletas e food trucks. localmente. Este ano o Café Joyeux é um dos finalistas da categoria Restauração, nos Prémios Marketeer 2025.

E também se aventuraram na inovação digital?

Sim, em 2024 lançámos um espaço no metaverso, desenvolvido pela agência Instinct, disponível em Português/Francês/Inglês. Lá, os utilizadores podem interagir com máquinas, fazer pedidos virtuais e aprender sobre a missão do Café, servidos por avatars dos próprios “équipiers”.

Como podemos ajudar o projeto a crescer?

Além de frequentar os café-restaurantes solidários e inclusivos, podemos encomendar online os cafés em cápsulas (compatíveis com as máquinas Nespresso) ou em grão ou o nosso Chá Menta Joyeux. Existem várias propostas para apoio por empresas, como entregas gratuitas ou colocação de máquinas em comodato, com assistência técnica incluída, ou a contratação de serviços de catering, a reserva de espaços para reuniões ou eventos ou, ainda, a realização de sessões de sensibilização para a inclusão para os seus colaboradores. E, claro, existe ainda a possibilidade de fazer doações regulares ou pontuais.

Saber mais em: cafejoyeux.com

Um agradecimento à minha amiga Sandra Gonçalves Urceira, que intermediou esta conversa com os responsáveis da Joyeux Portugal. Já fiz a minha encomenda e aceito o convite para uma “Chávena de Alegria”!