Cardus Edição 145, maio 2025
Constituição da República Portuguesa
Artigo 64º
(Saúde)
Todos têm direito à proteção da saúde e o dever de a defender e promover.
No mês de abril celebra-se todos os anos o Dia Mundial da Saúde, um direito constitucionalmente consagrado, mas simultaneamente um dever individual de o promover. É também ao 19.º dia deste mês que se comemora o Dia Internacional da Biodanza e do seu criador Rolando Toro de Araneda, uma prática que tem atraído cada vez mais praticantes em Portugal. Dirigi o convite a Xana Condeço, facilitadora há mais de 12 anos, para nos falar desta pedagogia promotora do bem-estar e de uma vida saudável.
O que é a Biodanza e como nasceu o “sistema biocêntrico” de Rolando Toro?
Biodanza é um método de desenvolvimento humano que usa a música, o movimento e o encontro afetivo para reforçar a alegria de viver, estimular a vitalidade e o sentido de pertença. Na Biodanza os movimentos não precisam de perfeição, mas sim de intenção.
Nos anos 60, Rolando Toro Araneda, o psicólogo e antropólogo chileno criador da Biodanza, observou que certos gestos simples, ao som de música envolvente, despertavam no corpo memórias antigas de afeto e pertença. Chamou-lhe “sistema biocêntrico” porque coloca a vida (bios) no centro das nossas escolhas— tal como um girassol se volta sempre para o sol, convidando-nos a dançar em sintonia com os ciclos naturais e as necessidades do corpo.
Porque te chamam “facilitadora” e não professora ou monitora?
Em Biodanza não há coreografias. É um sistema de desenvolvimento humano e por isso não “ensinamos” passos; criamos condições para que cada participante descubra o seu próprio movimento. O termo facilitadora sublinha esta postura de "facilitar o processo", cuidando, acolhendo, apresentando propostas, dando os estímulos, selecionando as músicas criteriosamente, garantindo a segurança necessária à entrega e acompanhando o processo, mas o verdadeiro poder de transformações emerge do corpo de quem dança.
Porque começamos e terminamos uma sessão em roda?
Rolando integrou a roda na Biodanza inspirada no quadro “Natividade Mística” do Botticelli onde aparece uma roda de anjos.
Sendo um arquétipo de totalidade, a roda facilita a vinculação afetiva, pois alinha o grupo num espaço sem hierarquias, onde todos se podem contemplar.
Quando damos as mãos, o cérebro recebe uma mensagem clara: “Não estou sozinho” e esse simples gesto simples faz baixar os níveis de stress, alinha a respiração do grupo e recorda-nos que pertencemos a algo maior do que nós mesmos.
O que significa “sentir, pensar e agir de forma integrada”?
Infelizmente vivemos tempos onde é muito difícil ser coerente, muitas vezes sentimos uma coisa, pensamos outra e acabamos por agir de um terceiro modo completamente dissociado do nosso sentir. A Biodanza ajuda-nos a clarificar as nossas emoções e como tal a encontrar uma maior harmonia entre emoção, razão e ação. Como consequência, quando sentimos, compreendemos e agimos de forma coerente, reduzimos os conflitos internos e tomamos decisões mais saudáveis e muito mais verdadeiras com a nossa essência.
O que é uma “vivência”? É um processo interno ou externo?
Em Biodanza chamam-se vivências às propostas de movimento porque o convite é que cada dança seja uma experiência vivida com intensidade, plena de sentido no instante do aqui-e-agora. Os estímulos são externos - a música e a proposta de movimento — mas o processo é interno: o corpo desperta, as emoções mobilizam-se e a consciência expande-se.
Que tipo de música se utiliza na Biodanza e segundo que critérios?
Apesar de a Biodanza ter um património musical muito eclético, o seu reportório é criteriosamente escolhido e avaliado experimentalmente. As peças musicais são escolhidas pela sua capacidade de provocar respostas orgânicas específicas. Os critérios incluem melodias orgânicas e integradoras, riqueza afetiva e ausência de letras excessivamente narrativas que distraiam da experiência corporal, ou que sejam dissonantes do propósito. A música precisa de “falar ao corpo antes de chegar à mente”, criando a atmosfera certa para que cada vivência possa ser deflagrada.
Que benefícios concretos a Biodanza traz à saúde e ao bem-estar?
A Biodanza não é apenas uma modalidade para ser praticada, é um sistema de revitalização e reeducação afetivas e reaprendizado das funções originárias de vida. Assim sendo, vai ter impacto:
A Biodanza é uma terapia?
Não, a Biodanza não é uma terapia, mas tem efeitos terapêuticos.
A Biodanza é principalmente profilática, ou seja, atua de forma a fortalecer todo o potencial saudável de cada indivíduo, evitando que a "doença", seja física, psíquica ou emocional, se manifeste.
Quem pode praticar?
Qualquer pessoa, independentemente da idade e condição, porque a Biodanza não exige aptidão física especial e adapta-se a diferentes condições de mobilidade. No entanto há grupos específicos para determinados grupos etários: Biodanza para crianças, para jovens adolescente e para seniores. Nos grupos regulares a idade mínima é de 16 anos.
É possível praticar individualmente ou só em grupo?
Não há Biodanzantes individuais, a Biodanza é um sistema de desenvolvimento humano, que necessita de outros humanos para espelhar e amplificar todos os processos internos, por isso a matriz grupal é fundamental e imprescindível.
De quanto tempo preciso para notar mudanças?
Depende, muitas pessoas relatam bem-estar logo após a primeira sessão. No entanto, para mudanças mais profundas e resultados mais consistentes (autoestima, gestão de stress, novas rotinas saudáveis) sugiro no mínimo um trimestre de prática regular semanal.
A Biodanza pode gerar uma transformação coletiva?
Sem dúvida! Ao cultivar empatia, cooperação e responsabilidade afetiva, o grupo torna-se um microcosmo da sociedade mais humanizada. Esses valores e atitudes tendem a irradiar-se para famílias, locais de trabalho e comunidade, inspirando mudanças sistémicas em direção a uma cultura mais centrada no cuidado e no bem-viver. Uma cultura mais biocêntrica.
Para quem quer saber mais, veja aqui uma entrevista a uma referência mundial da Biodanza e presença regular em Portugal: O que é Biodança - por Hélène Lévy Benseft -
Ana B. Suspiro