Home Cardus Edição 152, dezembro 2025

CINEMA

Pedro

Pedro Cheque é crítico de cinema e jornalista em formação pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo.


A PRIMEIRA NOITE DE TRANQUILIDADE

Valerio Zurlini

“Pouco presente, muito passado, nenhum futuro."


Daniele é um homem tão apegado à própria tristeza parece não lembrar como é viver sem ela. Mesmo professor, é incapaz de assumir qualquer papel que exija responsabilidade. Sua rotina é feita de apostas, bebidas, mulheres e pequenas autossabotagens — escapes que funcionam menos como prazer e mais como uma tentativa de prolongar o próprio esgotamento.

Vanina, aluna de Daniele, carrega uma melancolia que ele reconhece de imediato. Daniele não se aproxima dela por idealização, mas por identificação: vê na jovem a mesma incapacidade de escapar das próprias feridas. É esse espelhamento que sustenta a ligação entre os dois, de duas pessoas que vivem como sombras do próprio passado.

Zurlini filma esse mundo com um pessimismo radical. Para ele, tudo foi contaminado pelos vícios: as instituições sociais — seja a escola, a família ou a Igreja — aparecem corroídas pelo cinismo, pela libertinagem ou pelo dinheiro fácil. Portanto, a relação entre Daniele e Vanina são produtos desse mundo que não permitem qualquer busca por redenção.